Quando eu era coordenador de um curso de graduação em tecnologia, um aluno do primeiro ano me disse que o sonho dele era trabalhar numa big tech americana.

Sentamos juntos, abrimos o site da empresa, olhamos as vagas. Selecionamos uma que faria sentido para ele no futuro. E eu disse: bom, você tem 3 anos. Aprende inglês, domina essas tecnologias, segue a empresa, vai em eventos, adiciona gente de lá, saiba tudo sobre eles.

Era um plano simples. Claro. Executável.

Alguns anos depois, recebo uma mensagem dele. Uma frase só:

"Professor, olha o meu e-mail agora."

E lá estava o domínio da big tech no @.

Essa história me dá orgulho até hoje. Mas também me dá um nó no estômago. Porque o caminho que funcionou para ele não existe mais do mesmo jeito.

O dado silencioso

A Anthropic publicou há três semanas o estudo mais detalhado sobre impacto da IA no mercado de trabalho. O dado que mais me incomodou não foi sobre demissões. Foi sobre contratações.

A contratação de jovens entre 22 e 25 anos caiu cerca de 14% nas áreas mais expostas à IA desde o lançamento do ChatGPT. Enquanto isso, o desemprego geral nesses mesmos setores permanece estável. Os seniores estão lá. Os juniores não estão entrando.

A IA não está demitindo ninguém. Está fechando a porta de entrada.

E isso é pior. Quem é demitido aparece na estatística. Ganha atenção, ganha manchete, ganha programa de recolocação. Quem nunca é contratado é invisível.

O que está acontecendo é silencioso: empresas estão usando IA para absorver o trabalho que historicamente era feito por quem estava começando. O relatório inicial. A pesquisa de mercado. A organização de dados. O primeiro rascunho. Tarefas que eram a porta de entrada.

Esse degrau sumiu.

A promessa que não posso mais fazer do mesmo jeito

Fui professor universitário por muitos anos e na própria How Education, com nossos bootcamps de UX, Produtos e Dados. A promessa que eu fazia aos alunos era simples: aprenda a técnica, entre numa startup, mostre serviço e cresça. O primeiro emprego era ruim, mas era o começo. E o começo era garantido. Sempre.

Hoje, preciso ser honesto: não posso mais fazer essa promessa do mesmo jeito.

Porque se a IA já faz o trabalho do Executor, aquele profissional que segue instruções, opera ferramentas e entrega o que foi pedido, então o profissional que entra no mercado agora precisa entrar já como Operador. Alguém que não apenas executa, mas que entende o processo, questiona o fluxo, sabe quando a IA está errando e quando está acertando.

No framework que uso com meus clientes, existem três níveis de maturidade com IA:

A IA está eliminando a demanda por Executores. Ponto. Esse nível virou commodity. E quem está saindo da faculdade preparado apenas para executar está chegando numa porta que já fechou.

Isso muda tudo. Muda o currículo. Muda a formação. Muda a postura. E muda, principalmente, o papel do RH.

Sua empresa precisa redesenhar a porta de entrada?

A How trabalha com RH e Liderança em programas que reformulam onboarding, formação inicial e desenvolvimento de talentos na era da IA.

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A provocação que sempre gera silêncio

Nos meus workshops para RHs, faço uma provocação que sempre gera silêncio:

"Vocês são Recursos Humanos. Mas e quando os recursos forem artificiais?"

Porque a Deloitte e a Forrester já estão prevendo que o RH vai gerenciar uma força de trabalho híbrida, parte humana, parte digital. E se isso é verdade, o RH precisa redesenhar a porta de entrada. Não lamentar que ela fechou.

O aluno que me mandou aquela mensagem anos atrás tinha algo que nenhuma IA substitui: clareza sobre onde queria chegar e disposição para construir o caminho em 4 anos. O plano era simples. As variáveis eram claras. O destino era previsível.

Hoje, o plano precisa ser diferente. O destino não está mais tão visível. E o caminho não é mais linear.

Mas a disposição de construir continua sendo o que separa quem entra de quem fica do lado de fora.

Se você está começando agora, qual é o seu plano para pular o degrau que a IA já automatizou?