Acessibilidade é para todos? — a importância da escrita

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Nota: Esse artigo foi escrito por Tarsila Santana (UX Writer) e publicado originalmente no canal da comunidade PretUX.

Demonstrando como a escrita inclusiva e a acessibilidade podem ser, também, matemáticas.

Se você já se sentiu um peixinho fora d’água ao lidar com alguma experiência em uma página, em um site ou aplicativo de celular, vai se identificar com alguns pontos no decorrer deste texto. Caso isso nunca tenha ocorrido com você, então comemore: privilégios? Sim, você tem! E não, não é porque você mereceu.

No quadro nacional, podemos falar sobre a inacessibilidade de diversos grupos minoritários por fatores não apenas de deficiências permanentes, mas de deficiências temporárias ou por exclusões de acordo com o seu contexto social. E isso se deve única e exclusivamente à falta de interesse que muitas empresas têm de investir em alguns grupos, como por exemplo de pessoas:

  • Com deficiência
  • Com baixa escolaridade
  • Neurodivergentes
  • Idosas

Tá bom, Tarsila, mas por qual motivo eu preciso saber disso?

Pensando através do objetivo de qualquer empresa: gerar grandes lucros, ao produzir com poucos custos, se levarmos em consideração a inclusão da pessoa idosa ao universo digital através do uso da comunicação inclusiva, por exemplo, o objetivo de aumentar os lucros seria atingido de forma muito facilitada.

No Brasil, esse público responde por 23% do consumo de bens e serviços, com uma renda anual estimada em R$ 940 bilhões.

Porém, as empresas insistem em se comunicar, em sua maioria, apenas com o público jovem, ainda que as pessoas idosas tenham um fator determinantemente atraente para grandes negócios: a economia prateada.

Economia prateada, do inglês silver economy, é o mercado voltado exclusivamente às necessidades das pessoas com mais de 60 anos. Ele também é conhecido como “economia da longevidade”, e vem crescendo conforme a população envelhece e a pirâmide etária se inverte em vários países.

Mas, Tarsila, o que economia tem a ver com escrita inclusiva ou acessibilidade?

Tudo, oras! Se você ainda não conseguiu entender como elas se conectam, saiba que um dos belos aprendizados que tive ao participar do primeiro Bootcamp de Escrita inclusiva e acessível para produtos digitais da How Bootcamps, ministrado pela inspiradora

Cecí Romera, graças a uma bolsa que ganhei de uma comunidade incrível como a PretUX, foi: venda o peixe mostrando o impacto positivo (e nos lucros) que a acessibilidade levará para o negócio. Isso me fez compreender de uma forma muito mais fácil que a acessibilidade deve e pode ser tratada com urgência.

Ainda que eu (e obviamente nem mesmo Cecí ou qualquer pessoa que estava prestigiando o curso) não ache que a economia seja o único fator determinante para que a acessibilidade ocorra, lembre-se: fale a língua das empresas, mostre os números.

A responsabilidade de incluir

Devemos ter em mente que, muito além dos números, existe também (e principalmente) uma responsabilidade social quando pensamos em acessibilidade. Mesmo que saibamos que o objetivo principal da maioria das empresas é mesmo gerar lucros, é necessário compreender que não existem benefícios se os textos se tornam incompreensivos, se as informações são inacessíveis, se grande parcela da sociedade não se identifica com algum serviço ou produto.

Ainda não temos como nos livrar do principal argumento às empresas: a economia, quando vivemos em um mundo capitalista. Mas podemos fazer a necessidade de gerar lucros ser o ponto de partida para a inclusão social.

Como então gerar mais lucros se deixamos uma grande fatia da sociedade excluída do dia a dia digital?

Os números acima correspondem somente ao público de pessoas idosas. E as pessoas com deficiência? E as pessoas analfabetas funcionais?

Somente na realidade brasileira poderíamos citar pelo menos 30% da nossa sociedade quando pensamos em deficiências permanentes. Isso corresponde a pelo menos 27,8 bilhões de reais que deixam de circular na economia todos os anos.

E quantas outras pessoas podem estar sendo excluídas socialmente se o seu produto não é acessível? Todos temos direito a consumir o que quisermos, não é?

No entanto, para consumirmos algo, primeiro buscamos entender o produto, o site ou o aplicativo. E como poderíamos compreender tudo isso se não entendêssemos a forma como eles são comunicados?

Abaixo seguem exemplos de como, através da escrita de exclusão, o acesso das pessoas ao consumo de algo pode ser limitado:

Esse é um push (se pronuncia pôochi) — ou, pensando de forma mais compreensível: uma notificação que aparece na tela do celular (ainda que tenham algumas poucas diferenças das notificações comuns) — de uma marca de roupa de varejo popular que recebi na semana passada no meu celular.

O conteúdo para falar sobre o desconto é criativo? Sim, é bastante! Mas é acessível? Definitivamente não. E posso explicar o motivo: “Esquece, o pai tá on e roteando” é uma frase muito nichada.

Nichada? O que isso significa?

Significa que nem todos os públicos vão entender. No exemplo citado acima, somente o público jovem que acompanha conteúdos específicos na Internet vai captar a mensagem. E quais as vantagens de não ser compreendido por grande fatia da sociedade brasileira que possivelmente consome ou quer consumir o meu produto?

Particularmente não consigo pensar em nenhuma.

Nos dois próximos exemplos existe um grande problema em comum: a marca se limita a lançar produtos indicados apenas a duas identidades de gênero, enquanto atualmente existem pelo menos 31. Levando em consideração que existem pessoas que podem não se identificar com nenhum dos únicos dois listados pela marca, ocorre uma exclusão de uma parcela de consumidores dos produtos da marca.

Além disso, na primeira figura, existe a palavra “login” (se pronuncia loguin), um estrangeirismo fácil de ser substituído por “entrar”, “conectar” ou qualquer palavra que faça sentido para todas as pessoas consumidoras.

Na figura abaixo, existe o estrangeirismo com a palavra “off” (pronuncia-se ófi), mas destaquei além do já citado acima sobre identidades de gênero, também a frase que se repete em muitos sites: “Aceitar todos os cookies, porque me questionei se de fato todas as pessoas conseguem entender o que são esses tão falados cookies (biscoito em inglês — que se pronuncia kúkeez).

O que eu posso fazer com uns cookies (ou kúkeez), além de comê-los mais tarde? Eu não sei, você sabe? Todas as pessoas usuárias que transitam pelos sites (sáitis) também podem saber?

Abaixo, segue um exemplo onde o leitor de tela, para o deficiente visual não vai ajudá-lo a compreender perfeitamente o emoticon representado por dois pontos e um parêntese:

Sobre alguns leitores de tela que tive conhecimento, entendi que, no exemplo acima, seria um problema ler as mensagens com o emoticon “:)”, porque a mensagem seria lida basicamente assim: “relaxa dois pontos fecha parênteses”. Qual sentido isso teria para uma pessoa com deficiência visual? Até mesmo para um idoso, também.

Outro dia a minha mãe, que tem 57 anos recém completados, portanto ainda nem é considerada idosa, se deparou com um emoticon (❤) que ilustra um coração e me perguntou o que ele significava. Até ela ouvir a minha explicação, ela não tinha compreendido a mensagem por inteiro.

No exemplo acima me incomodei com o fato de, após usarem a palavra “novidades”, usarem também do estrangeirismo e colocar “new” ao lado dos itens.

Na foto de tela ao lado, circulado de vermelho, trouxe um exemplo de estrangeirismo diferenciado, como eu nunca havia me deparado antes.

Além do aviso “comprando agora acumule 2 lik&s” ter o risco de ficar inacessível para quem não compreende inglês, também existe a dificuldade de compreender a palavra “likes”, já que existe um símbolo substituindo uma das vogais da palavra. Sendo assim, ela pode não ser muito bem compreendida, seja por não falantes de inglês, por pessoas mais velhas ou por deficientes visuais, por exemplo, que precisam do auxílio do auxílio de leitores de telas que leem exatamente como as informações estão na tela.

Logicamente, não somente os grupos minoritários citados no texto precisam de acessibilidade, mas é fundamental para todos, de alguma forma. E torná-las frequentes, não somente trará benefícios a grupo específicos, mas a toda a sociedade.

Também é importante lembrar que acessibilidade e inclusão não é caridade. Essas duas são direito de todo ser humano.

Está na constituição:

Os direitos sociais estão prescritos no artigo 6º da Constituição, que prescreve os direitos do cidadão à educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade, infância e também à assistência aos desamparados.

É necessário dar a todas as pessoas a autonomia que todos merecem. Afinal de contas, você deve concordar comigo que é mesmo muito chato que o acesso a qualquer coisa que precisamos ou queremos fazer somente seja possível com o auxílio de alguém, não é mesmo?

Então, caso queira mergulhar nesse universo que estou completamente inquieta para consumir mais conhecimentos e colocá-los em prática, eu super indico o curso de Escrita Inclusiva e Acessibilidade da How Bootcamps. As práticas sugeridas por Cecí dão diversos insights incríveis e tornam seu olhar mais atento no dia a dia.

Eu, por exemplo, poderia jurar que esse meu primeiro artigo no medium não daria mais de dois minutos, mas cá estava eu distribuindo diversos exemplos e já pensando em desenvolver novos artigos sobre acessibilidade e escrita inclusiva, porque simplesmente não dá para escrever tudo em um só.

Obviamente, ainda estou no início da minha jornada na área e ainda tenho muito a aprender. Ainda assim, já estou muito feliz por partilhar um dos meus primeiros aprendizados aqui.

Gostaria de encerrar meu primeiro artigo agradecendo novamente à comunidade PretUX, que foi extremamente acolhedora e me presenteou com essa preciosidade que é o curso. Também ao meu noivo Tiago Pereira que é uma das pessoas que mais me incentivam na vida, junto a minha mãe. Quero agradecer também a Jeane Bispo que é uma joia rara que apareceu em minha vida. Quero agradecer ao meu brother (irmã em inglês, mas popularmente conhecido como amigo em algumas regiões do Brasil — se pronuncia bróderRafael Bandeira que há muito tempo me manda escrever artigos e investir mais no meu Linkedin. Também às minhas parceiras de projeto há três meses, que são extremamente compreensíveis e competentes:Evelyn Barros e Kézia Wiezel Brasil Rosa.

Thanks to Jeane Bispo.

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