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Um artigo sobre o nada

OBS: Artigo criado por Anderson Gomes (Head of Design, Hotmart), originalmente publicado aqui.

O vazio incomoda não é mesmo?

Vivemos buscando preenchimento para nossos vazios mais intrínsecos, a fuga do ócio é a atividade do momento, pois lidar com o ócio é desafiador, dói, refletir e pensar cansa, incomoda.

Por outro lado, estamos em busca de prosperar para reconquistarmos nosso tempo de volta, conquistar o tempo que vendemos dia após dia durante o trabalho. Trabalhamos 11 meses do ano em um ambiente urbano, caótico, inóspito, para finalmente ser recompensado com 30 dias de férias, ideais para viver uma vida simples de pescador (Próximo ao mar, comendo frutos do mar, deitado na rede, passeando de barco, vendo o por do sol,…).

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Para que queremos conforto?

Imagine que vc finalmente conquistou o que queria, seus filhos se tornaram “adultos de sucesso”, vc comprou aquele carro confortável, vc fez aquela viagem que sonhava, vc conquistou o direito de não precisar mais trabalhar.

E agora?

Porque buscou isso?

Qual é a busca por trás da busca incansável por conforto?

Automatizamos para ter tempo, oferecemos serviços para que as pessoas tenham mais tempo, produzimos em escala para que mais pessoas tenham tempo, andamos cada vez mais rápido. Digamos que agora, diante de toda essa eficiência, nos sobraram 3 horas a mais no dia. O que você fará com esse tempo?

Lembro-me que na época da faculdade um professor de história das técnicas contou que no passado um sapateiro demorava 12h para fazer um sapato, conseguia viver a vida nesse ritmo, com o avanço tecnológico ele conseguiu fazer um sapato em uma hora, e então tomou a decisão de fazer 12 sapatos por dia, invés de enfrentar o ócio de 11 horas do seu dia. Porque escolhemos esse caminho da hiper produção empurrada? O que faremos com tantos sapatos?

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Se queremos ser mais produtivos, o que estamos produzindo?

Entendo que com o avanço industrial e tecnológicos o aumento da eficiência se tornou importante. Porém, me questiono sobre porque nós, seres humanos, estamos trabalhando cada vez mais horas, se as máquinas estão teoricamente trabalhando por nós.

O que define um dia produtivo?

O dia e o tempo é seu, sendo assim, você define as prioridades sempre, mesmo quando não define, está escolhendo não escolher. Após a revolução industrial ficamos viciados em sermos mais produtivos. Porém, o que a sua máquina humana está produzindo? Qual o produto final de um dia muito produtivo? Por fim, o que faz um dia ter valido a pena? Ou seja, o custo de produção foi menor do que o resultado produzido.

Um humano sentado em seu momento de reflexão…

está produzindo ou desocupado?

Quem é mais produtivo? Um trabalhador de uma fábrica ou um filósofo?

No livro Essencialismo, o autor Greg Mckeown inspira-se em Dieter Hams para definir o coração da sua filosofia: “Menos, porém melhor”, destaca a importância de tomarmos escolhas e ponderarmos porque, onde e quando iremos investir nossa energia e tempo.

Trago aqui alguns trechos do livro que achei muito interessante sobre o nada:

Ócio criativo

“Consegue se lembrar de como era ficar entediado? Isso não existe mais”

“ Sem grande solidão, nenhum trabalho sério é possível “ — Pablo picasso

Perguntaram a Newton como havia descoberto a lei da gravitação universal e a resposta foi: “Pensando nela continuamente

Brincar e escola (skholē = lazer)

Colombo brincava enquanto percebeu que o mundo era redondo. Newton brincava com seus pensamentos quando viu a macieira e, de repente, concebeu a força da gravidade. Watson e Click brincavam com os possíveis formatos para moléculas de DNA quando pensaram na hélice dupla. Shakespeare brincou com pentâmetros Iâmbicos a vida inteira. Os experimentos de pensamento de Einstein são exemplos brilhantes da mente sendo convidada a brincar.

Já parou para pensar que, muitas vezes, os momentos que nos sentimos mais vivos, aqueles que criam as melhores lembranças, são momentos lúdicos?

Brincar é definido como tudo o que fazemos apenas pela alegria de fazer

De fato, usamos nossos dias para fazer “ Muitas coisas triviais, poucas coisas vitais”, como viver, brincar, refletir, ter momentos relevantes.

De fato existe um movimento chamado Nadismo, que estuda a habilidade de fazer nada, de contemplar seu ócio de peito aberto, sem cobri-lo com distrações.

Para quem estamos vendendo nosso tempo?

A forma mais comum de sobreviver é vender sua “hora homem” a alguém que sabe melhor que você como usá-la. Produzir algo de fato exige reflexão e “colaboração” de muitas pessoas, que caso não concordem em fazer a coisa por propósito comum, optam por fazer por dinheiro, que traz benefício e praticidade para si mesmo.

Por quanto tempo venderei meu tempo?

O dinheiro é libertador e dominador. Mês após mês vivemos o Mito de Sísifo que nos detém ao ciclo de ganhar para gastar. Quando acabará o seu ciclo mensal de venda do próprio tempo?

Ouvi dizer que existem dois tipos de pessoas, os martelos e os pregos. Quem compra tempo e quem vende tempo.

Comprar tempo é um atalho para convencer pessoas a agirem em uma direção que você deseja. Quando terceiriza uma atividade, está de fato usando o tempo de outro para algo que você acredita.

Enfim, esse artigo não deu em nada.

Porém o durante é o que temos.

O fim é imaginário.

Imaginar é perda de tempo.

Já faz tempo que não temos tempo de observar coisa alguma.

Anderson Gomes (Head of Design, Hotmart), é facilitador do Bootcamp Design Leadership, aqui, na How.

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